Queimadas na Amazônia: liderança indígena fala sobre os principais desafios que estão em pauta

Ninawa Inu Hunikuin se pronuncia sobre as queimadas, as mudanças climáticas e os desafios de um dos maiores incêndios da história do Brasil

Atualmente, o Brasil está em um momento peculiar. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), agosto de 2019 bateu recorde de incêndios na Amazônia em nove anos. Dados do Programa Queimadas apontam que o número de fogo na região da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Maranhão e parte do Mato Grosso) triplicou em relação a agosto de 2018, passando de 10.421 para 30.901 casos registrados. Além disso, informações do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) indicam que o desmatamento aumentou 15% entre agosto do ano passado e julho deste ano. 

Porém, não é só a Amazônia que está nesta situação. Semana passada, tanto outra parte do Mato Grosso quanto mais ao sul, o município de Palhoças (Florianópolis), decretaram situação de emergência devido aos incêndios. No Mato Grosso, mais de 6 mil hectares da Chapada dos Guimarães foram queimados até agora. No Pará, o incêndio em Alter do Chão se agravou neste domingo, 15 de setembro, e o Estado pediu ajuda da Força Nacional. 

Ninawa Inu Hunikuin é conhecido como o “Cacique dos Caciques”. Presidente da Federação do Povo Huni Kui do Estado do Acre, ele conta que o povo indígena está muito preocupado com as queimadas atuais. Nesta entrevista, ele fala sobre as queimadas, as mudanças climáticas e os desafios de um dos maiores incêndios da história do Brasil. Confira a entrevista na íntegra:

Há muitas divergências sobre o que e quem está causando essas queimadas. Na sua opinião, o que está acontecendo?

Estamos num período de queima nos campos, seria esperado haver uma ou outra queimada. Mas não desse jeito e com essa proporção. Na história do Brasil, nunca houve um incêndio em áreas tão grandes. Há vários fatores, mas o mais agravante é o fato de proibirem de multar pessoas que promovem incêndios propositais. Não é por acaso que muitos dos incêndios estão desmatando áreas que são foco dos latifundiários. Assim facilita-se a plantação de soja e gado. 

Qual é a população que está sendo mais afetada pelos incêndios?

Quem sofre mais com tudo isso são as populações mais pobres. Porém há uma diferença entre quem está na floresta e quem está morando nas periferias. As comunidades indígenas e tradicionais acabam sendo mais prejudicadas pela falta de segurança alimentar. Secaram ou contaminaram um rio? A comunidade que depende dele vai morrer de fome. 

Aliás, 90% das aldeias na Amazônia não contam com água potável, são rodeadas de águas contaminadas, poluídas. Hoje já há crianças nascendo desnutridas pois as mães estão desnutridas. Com as mudanças climáticas e a ação humana, o solo já está contaminado – e assim não há segurança alimentar, não há alimentação de qualidade. O assoreamento é algo terrível para essas populações. 

Qual o impacto dos incêndios e das mudanças climáticas na saúde dessas populações?

No Acre, muitas crianças e idosos estão tendo problemas respiratórios devido às fumaças. Quando chover, as enfermidades vão triplicar, pois vão se espalhar não só pelo ar como pela água e solo. 

Quando o clima altera uma região, as pessoas são obrigadas a ter menos qualidade de vida. No caso do meu povo, muitas mulheres estão com câncer por conta dessas mudanças no clima, na natureza, nos hábitos alimentares. E, no caso do Acre, não conseguimos mais saber qual é o período da estação, pois o tempo está todo descontrolado.

Qual é a reação dos indígenas sobre os incêndios?


Nós estamos muito preocupados, apesar de que nenhuma comunidade do meu povo foi incendiada. Mas um centro cultural nosso, perto da cidade de Rio Branco, foi incendiado. Lá, além disso, cinco hectares de terra estão sendo queimados – o que equivale a cinco campos de futebol. Estão acabando com a plantação de algumas famílias. 

No Tocantins, a comunidade Krahô Kanela não está conseguindo controlar o fogo e poucas pessoas têm oferecido ajuda para eles. E no sul da Amazônia há centenas de quilômetros sendo queimados. É algo muito grande e muito novo. 

Qual é a maior perda, na sua opinião?

A perda é incomparável, é imensa. Os animais que viviam ao redor das aldeias foram embora, não sabemos em quantos anos que eles vão voltar e se vão voltar. Além do mais, nossas medicinas da floresta estão sendo queimadas – incluindo aquelas que fazem mal e acabam sendo inaladas. 

Qual sua opinião sobre o posicionamento das autoridades encarregadas de apagar os incêndios?

As autoridades encarregadas de apagar o fogo estão acomodadas, não estou vendo muita preocupação e esforço para resolver a situação. Vejo muitos desses representantes falando que essas queimadas são normais e tentando levar ao descrédito o que as comunidades indígenas estão denunciando. 

Porém, estamos em um período em que a sociedade precisa se unir, pois todo o planeta depende da Amazônia para ter uma qualidade de vida melhor. Todos precisam dar as mãos, é um momento importante da humanidade. Nós, indígenas, somos parte da solução para esses problemas, só precisamos que nos considerem e respeitem nossos territórios e nossos conhecimentos tradicionais. É tempo de unidade.

## Laura Moreira Sliva: laura@naofrackingbrasil.com.br

Author:
Jornalista do Instituto Arayara e da COESUS - Coalização Não Fracking Brasil

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